Cartografia afro-lusa

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Diáspora (2017) #Hábitos e Práticas #diáspora negra #contemporaneidade

Diásporas e diásporas negras: usos de uma palavra global

Diáspora (do grego διασποsρά «dispersão», der. de διασπείρω «disseminar») é uma palavra global, de utilização difusa e origens antigas, que se refere à dispersão territorial de uma comunidade, afastada, por razões diversas, da própria terra de origem, real ou imaginada.

Assistimos hoje a uma dupla evolução do seu uso (Dufoix, 2011: pp. 15-17). A par da continuidade que tem a sua acepção antiga, ligada à história da perseguição do povo judaico, e que remete para a condição de afastamento de um centro territorial de referência e o desejo de regresso, na contemporaneidade este termo atinge um emprego disseminado em diferentes contextos e campos do saber (jornalismo, política internacional, artes, estudos académicos, etc.), valorizando a condição de desterritorialização de uma comunidade e as impossibilidades de retorno.

Hoje, a condição diaspórica carateriza uma grande diversidade de comunidades e há quem fale da dispersão contemporânea dos usos difusos deste termo como uma diáspora da própria palavra diáspora (Brubaker, 2005: p. 1), o que também remete para o seu trajeto etimológico.

Pactuando com a acepção de «comunidade» de Benedict Anderson (1991), as comunidades diaspóricas não se distinguem pela sua autenticidade, mas pelas variadas formas como imaginam a sua história, as suas identidades e culturas. Reconhece-se tal condição em relação a movimentos populacionais, forçados e/ou determinados por fatores externos (raça, perseguição religiosa ou política, guerra, pobreza, discriminação etc.), de grupos que reclamam uma identidade diaspórica e que partilham e negoceiam uma cultura transnacional que se distingue da que é dominante do Estado-Nação onde estas se encontram localizadas.

Além do caso hebraico, hoje muitas outras comunidades reconhecem-se ou são apelidadas de diaspóricas tornando as tentativas de categorização, tipologização e comparação algo difícil e temporário (Safran, 1991: pp. 84-90; Cohen, 2008: pp. 4-8). Porque a diáspora, enquanto palavra, conceito e prática, tem em si uma potencialidade errante, que inscreve múltiplas diferenças identitárias no seio da sociedade dita «Ocidental», destabilizando os pilares de uma história não unívoca.

Através de processos de releituras da história e de uma percepção mais exaustiva da diversidade que carateriza a época contemporânea, o uso tradicional desta palavra abre espaço para uma multiplicidade de contextos e práticas em que as identidades habitam na viagem (Clifford, 1999, p. 2), se caraterizam pelo seu hibridismo e transnacionalismo (Hall, 1990, p. 235) e pelas quais «o sentimento de pertença é compatível com o de distância.» (Dufoix, 2011: p. 16).

A diáspora africana, com as diásporas judaica, arménia, grega, caribenha, entre muitas outras, é hoje uma das mais debatidas. A ideia de uma grande diáspora africana, que durante séculos viu a disseminação de escravos por todas as partes do globo, é formulada por Paul Gilroy (1993). O autor procede ao processo de releitura de uma história de uma deportação que foi massiva — calcula-se que o comércio de 12 milhoes de pessoas, um terço das quais mulheres, entre 1519 e 1867 (Pétré-Grenouilleau, 2004) — violenta e duradoura, em que os negros não podem apenas ser percebidos como vítimas desta mesma história, mas também reconhecidos como agentes, portadores de culturas e de uma história intelectual que se desenvolveu na diáspora.

A memória da escravidão torna-se então essencial para a percepção da experiência colonial, bem como das várias formas de discriminação racial que a população negra sofreu no decurso da história, até os nossos dias. O sofrimento que esta experiência dolorosa acarreta é o elemento comum que une a população negra na diáspora, independentemente das suas origens territoriais e diferenças culturais.

O modelo do Atlântico Negro descrito por Gilroy é um espaço extremamente violento, mas onde houve também intensas trocas culturais. É nesse mar que nasce uma cultura diaspórica, híbrida e transnacional, que, ao mesmo tempo, se opõe à procura de uma origem ancestral em África.

As culturas da diáspora negra no contexto lusófono também se formaram no espaço oceânico. Como demonstram os estudos do historiador Luís Felipe de Alencastro (2000), o processo de formação do Brasil dá-se principalmente no Atlântico Sul, não exclusivamente através da relação de dominação Norte-Sul, mas com intensas atividades de trocas entre Brasil e África. Segundo o historiador, trata-se de uma zona económica e cultural transcontinental luso-brasileira e luso-africana, que, a partir do século XVI até a extinção do tráfico negreiro em meados do século XIX, se move em torno da exploração do comércio de escravos.

Descentrando o paradigma atlântico, é possível afirmar a longa duração as relações afro-portuguesas. África ocupa um lugar essencial na sociedade portuguesa, onde há séculos existe uma «silenciosa» população negra (Tinhorão, 1997; Henriques, 2004). Uma análise sistemática deste contexto, afirma Isabel Castro Henriques, revela «a densidade da intervenção africana na organização da sociedade portuguesa: no trabalho e na produção, na língua, na religião, na festa, na música e na dança, no corpo e na sexualidade, na toponímia» (Henriques, 2011, p. 9).

No passado recente, a guerra colonial (1961-1974), representou um momento de extrema violência, fratura e desterritorialização, de contacto e interação entre portugueses e africanos, dos seguintes países: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique. Com os consequentes processos de descolonização e agora num momento pós-colonial, os fluxos África-Portugal, as redes migratórias, e os contactos não se extinguiram e constituem uma memória viva que testemunha a importância de uma presença africana em Portugal, alastrando consigo séculos de uma conflituosa história colonial.

Agora numa realidade europeia, onde a presença africana é muitas vezes tratada como um fenómeno de imigração recente (Blakely, 2009: pp. 4-28), as diásporas negras em Portugal desvendam a ocultação de uma história colonial que foi um processo de importantes trocas culturais, mas também de relações sociais assimétricas, violências e sofrimentos.

 

 

Referências:

Alencastro, L. F. (2000). O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. Séculos XVI-XVII. (1.ª edição). São Paulo: Companhia das Letras.

Anderson, B. (1991). Imagined Communities. Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. (reimpr. 2003). London/New York: Verso.

Blakely, A. (2009). «The Emergence of Afro-Europe: a Preliminary Sketch». in Hine, D. C.; Keaton, T. D. (ed.s). Black Europe and the African Diaspora. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, pp. 3-28.

Brubaker, R. (2005). «The ‘Diaspora’ Diaspora». Ethnic and Racial Studies. 28: 1, pp. 1-19.

Clifford, J. (1999). Routes: Travel and Translation in the Late Twentieth Century. (1.ª edição)Cambridge: Harvard University Press.

Cohen, R. (2008). Global Diasporas. An Introduction. (2.ª edição). New York/London: Routledge.

Dufoix, S. (2011). La Dispersion. Une histoire des usages du mot diaspora. (1.ª edição). Paris: Éditions Amsterdam.

Gilroy, P. (1993). The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness. (1ª edição). London/New York: Verso.

Hall, S. (1990). «Cultural Identity and Diaspora». in Rutherford, J. (ed.), Identity: Community, Culture, Difference. (1.ª ed.). London: Lawrence & Wishart, pp. 222-237.

Henriques, I. C. (2011). Os Africanos em Portugal. História e Memória. Séculos XV-XXI. (1.ª edição) Lisboa: Comité Português do Projeto Unesco «A Rota do Escravo».

Henriques, Castro (2004). Os Pilares da Diferença. Relações Portugal-África. Séculos XV-XX. Lisboa: Caleidoscópio.

Pétré-Grenouilleau, Olivier (2004). Les traits négrièrs: essai d’histoire globale. Paris: Gallimard.

Safran, W. (1991). «Diaspora in Modern Societies: Myths of Homeland and Return». Diaspora: A Journal of Transnational Studies. 1: 1, pp. 83-99.

Tinhorão, José Ramos (1997). Os negros em Portugal. Uma presença silenciosa. Lisboa: Caminho.

 

 

Martina Matozzi

CES, Investigadora Memoirs – Filhos de império e pós-memórias europeias, ERC