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Massacre (2017) #Epistemologias #biopolítica #violência étnica

Massacre, horror e biopolítica: técnicas das narrações identitárias

É problemático negociar uma definição, uma forma, para um objecto informe e de violência infinita, como o massacre. Poderia dizer-se que o massacre é um evento que pertence à constelação do horror. E há, de facto, um elo comum, semântico, entre horror e massacre. Não é só o desmembramento dos corpos como causa e efeito do horror e também do massacre, mas ambos são marcados, mais em profundidade, pela condição de bloqueio, de paralisia, de um tempo estanque (Sofsky, 1998, p.154) que se lhes torna implícita, tornando nula qualquer acção ou reacção.

É interessante referir uma sugestão etimológica em relação ao termo massacre. Trata-se de uma palavra moderna, de raiz francesa (massacrer, de um possível étimo latino *matteucculare, de *matteuca, clava, como instrumento que dá a morte) atestada nos séculos XVI-XVII. Mas é o sufixo que remete para o adjetivo sacer – a que o gramático Festo atribui o sentido de “separado” (Agamben, 2005, p.32) – de massacre, que produz um efeito sugestivo. De facto, é na condição biopolítica da exclusão, da separação ou do isolamento que se produzem as condições para que o massacre possa consumar-se, como acto ou ritual “comunitário” (Sofsky, 2001, p.85) que não pressupõe culpa pela eliminação de uma vida desqualificada, nem possibilidade de ritualização do corpo do outro.

Na violência, há sempre um desencontro entre um nível objetivo, que possibilitaria uma classificação, e um nível de percepção subjetiva. No entanto, como ocorre com o termo genocídio sancionado pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, o massacre marca um índice qualitativo da violência que proporciona as condições para uma sua representação categorial.

Tecnicamente, o massacre distingue-se de um modo específico de outras formas de violência em contexto bélico, o que faz com que, no massacre, a violência se exponha sem máscaras ou disfarces: o massacre “é violência no estado puro, nada mais” (Sofsky, 1998, p.152). Na avaliação que pode fazer-se da relação violência/força, o que se observa é que o massacre se produz no momento em que a força que lhe se contrapõe é extinta. Por isso, a violência exibe-se integralmente, sem nenhuma atenuação. Além disso, há uma economia do massacre baseada no desperdício, na desmedida desprovida de qualquer “racionalidade” que a justifique.

O massacre, pelo menos do ponto de vista da reflexão sociológica, ainda que possa parecer paradoxal pela violência desmedida que o sustém, assume uma forma específica através de uma cultura e de um conflito que o pré-constituem. Não só, mas tal semântica torna-se apreensível se o massacre se inscrever no processo de destruição mais amplo de que é parte, a parte mais “espectacular”. Se considerarmos alguns aspectos biopolíticos das técnicas de massacre, será mais fácil conseguir pensar a violência extrema, colocando assim o massacre dentro de uma genealogia. A violência do massacre, de facto, exibe uma outra dimensão em jogo em prol da dominação: a introdução de uma cesura fundamental na reconfiguração da relação de espaço e poder, que transforma em corpo só biológico o corpo político de grupos de excluídos no âmbito da soberania, fragmentando a comunidade no plano da vida: isto mostra o aspeto moderno das operações responsáveis pelo massacre. Como ocorre, por exemplo, no caso da colónia, pela violência que se pode manifestar em diferentes formas, macroscópicas (o apartheid, ou a guerra colonial, por exemplo) ou menos visíveis (a organização do trabalho, a racialização das classes sociais etc.).

A economia dos massacres apresenta algumas singulares invariantes, como se neles dominasse “a lei do excesso” (Sofsky, 2001, p.80). Há, quanto ao espaço, a exigência de um lugar fechado, como um círculo que se estreita incluindo as vítimas da ação. Este combina-se com um absoluto controlo do tempo: os perpetradores do massacre são “soberanos do tempo do horror” (idem, p.81), que pode ser assim gerido com uma sádica programação. E emerge também um outro traço que marca a economia do massacre: tem sempre o estigma da violência comunitária (idem, p.151).

Os elementos constitutivos do massacre que surgem da sua representação – quando possível – trazem à luz os elos menos visíveis que articulam a violência brutal, pura da chacina. Esta configura-se assim por uma dupla conotação. Por um lado, a economia como excepção da política (inclusive por um elo etimológico) que se instaura na excepção do massacre é um elemento perceptível, também no sentido da privatização da orgia do horror onde o corpo do perpetrador se funde com a violência absoluta (Sofsky, 1998, p.159). O segundo aspecto, em contacto com o anterior, é que o massacre, compartilhado pela communitas de massacradores, é já em si uma técnica – imunitária – para “imaginar a comunidade”, uma narrativa identitária, que repete diferencialmente, na diferença das performances rituais que agem sobre os corpos (Dei, 2005, pp.40-41). Talvez valha a pena lembrar aqui as reflexões sobre a relação entre violência e construções identitárias que Arjun Appadurai (1998) vem estudando, tendo em foco justamente os conflitos étnicos que exibem o embate entre as certezas das identidades atávicas e as incertezas das crises contemporâneas. Isto permite definir uma sintaxe simbólica dos massacres, onde os ritos cruéis dos massacres funcionam como formas brutais de uso, classificação, demarcação dos corpos dos que se consideram os inimigos ‘étnicos’ (cfr. Dei, 2005, 40-41).

 

 

Referências:

Agamben G. (1995). Homo sacer. Il potere sovrano e la nuda vita, Torino: Einaudi.

Appadurai, A. (1998). «Dead Certainty: Ethnic Violence in the Era of Globalization». Public Culture, 10 (2), pp.225-247.

Dei F. (2005). «Descrivere, interpretare, testimoniare la violenza». Antropologia e violenza. Roma: Meltemi, pp 7-75.

Sofsky W. (1998). Saggio sulla violenza. Torino: Einaudi.

Sofsky, W. (2001). Il paradiso della crudeltà. Dodici saggi sul lato oscuro dell’uomo. Torino: Einaudi.

 

 

Roberto Vecchi

Universidade de Bolonha
Memoirs – Filhos de Império e Pós-Memórias Europeias, ERC, 2015-2020