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Trauma (2017) #Epistemologias

De um ponto de vista etimológico, trauma significa literalmente ferida, lesão. Nos finais do século XIX, princípios do século XX, Pierre Janet, Sigmund Freud e outros alargaram o conceito ao domínio psíquico. Na interpretação de Freud, consolidada depois da Primeira Guerra Mundial, o trauma é o resultado de uma experiência de perda ou sofrimento de intensidade inusitada que rompe as barreiras da protecção psíquica frente a estímulos exteriores e leva a que o aparelho psíquico sofra uma regressão para formas de reacção primitivas. A integridade do sujeito surge radicalmente ameaçada quando este fica colocado numa situação de desconcerto radical. Processa-se, assim, uma cisão do eu no quadro da qual a inscrição do trauma no corpo da vítima escapa ao controlo do sujeito, que assiste impotente à repetição compulsiva da memória traumática e à perda de toda a relação temporal coerente, já que essa repetição torna constantemente presente uma situação passada da qual, aparentemente, é impossível libertar-se.

Em particular depois do Holocausto, o conceito sofreu um alargamento em três sentidos principais. Em primeiro lugar, tornou-se claro que a origem do trauma não tem que ser um acontecimento isolado, ele pode também resultar de uma situação prolongada de vulnerabilidade permanente e extrema a uma violência absoluta. Em segundo lugar, impôs-se a questão da latência do trauma, isto é, o facto de que muitas vezes podia mediar um período amplo entre a saída do contexto traumático (a libertação dos campos, por exemplo) e a irrupção dos distúrbios traumáticos. Em terceiro lugar, começou a reconhecer-se que o impacto familiar da memória traumática podia afectar também as gerações seguintes, quer dizer, tornou-se manifesto que o trauma tinha uma dimensão transgeracional no sentido do que, muito mais tarde, Marianne Hirsch viria a chamar pós-memória.

Na actualidade, o conceito de trauma pertence ao número dos conceitos que podem dizer-se migratórios, pela capacidade que detêm de se afirmar em domínios distintos da sua aplicação original. Assim, um conceito originalmente da esfera clínica veio a ocupar um lugar relevante na teoria cultural contemporânea, enquanto modelo universal de interpretação de situações de sofrimento e vulnerabilidade. Neste contexto, há uma dimensão que surge particularmente sublinhada, o facto de que o trauma constitui um excesso inassimilável que destrói a possibilidade de uma identidade estável e, portanto, também a possibilidade de uma narrativação coerente da experiência subjectiva. Por outras palavras, o trauma suspende a dimensão do sentido, a lógica de simbolização e de produção de significados, e projecta, assim, o sujeito numa situação de isolamento e de impossibilidade de comunicar. Por isso, o testemunho, que restitui uma relação com a palavra e, ao permitir a recuperação de um estatuto de autoria, conduz à superação da situação de vítima, só pode ser dialógico, quer dizer, a possibilidade do testemunho só emerge quando há um interlocutor, sem o qual, por definição, o sujeito traumatizado seria incapaz de articular a sua narrativa pessoal.

A universalização contemporânea do conceito de trauma, em particular na forma de um “trauma cultural”, tem sido objecto de crítica, desde logo, por exprimir uma tendência de banalização que ameaça a precisão e a especificidade histórica do conceito. Na verdade, enquanto chave universal para a interpretação das consequências de situações de violência, o conceito torna-se difuso e incapaz de fazer devidamente justiça à especificidade do sofrimento individual e ao diferente valor de posição de cada contexto. Afinal, há uma grande diferença entre ter vivido anos em Auschwitz ou ter sobrevivido a um terramoto ou um acidente de trânsito. Neste particular, a universalização do conceito de trauma corre paralela a uma não menos problemática universalização do conceito de vítima.

 

 

António Sousa Ribeiro

Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra